Pétalas e perfumes escabrosos
devoram almas em gritos tenebrosos
Eu estive parada a contemplá-la em seus últimos
minutos torturantes,
os que mais pareceram uma eternidade preza em cada
grito de dor dela.
Em pé, eu, torcia para que tudo fosse logo silencio, e
a morte trouxesse a paz.
Mas a menina ainda sofria jogada naquele chão sujo
como um fantoche,
uma boneca viva e volúvel, da beleza que se estendia
por suas costas rasgadas.
Suas unhas arranhavam a terra de agonia, enquanto sua
boca espumava muito.
A carne começava a rasgar devagar com o peso do corpo
a esmagando forte,
era como um espetáculo para os céus limpos calados e
atentos a este suplício.
Pétalas e perfumes escabrosos
devoram almas em gritos tenebrosos
Ela estava presa por um ser tão belo e inofensivo que
era esplêndido olhar.
Gavinhas incrustados de espinhos cobriam-na e
estupravam as veias de seu pulso.
Estendiam-se devagar por fora e por dentro de seu
vestido como víboras negras na areia.
Ousavam pintar de vermelho até suas partes dignas de
cortejo e deturpavam-na inteira.
Nos lábios, as pontas venenosas invadiam sua boca e
lhe proviam gemidos fracos.
O cheiro era quase insuportável, delirante, doce, excitante
para qualquer mortal, mel.
E ainda mais esplêndida era a frágil rosa em suas
costas, cujo galho suspendia de sua coluna.
E as pétalas caídas criavam raízes em meio aos cabelos
negros da bela jovem quase morta.
Em sua pele começava a brotar espinhos agudos e
afiados, no instante que sua boca parou,
Morreu num silencio assombroso, ainda aberta a boca
vermelha começava a perder a cor.
Folhas começam a brotar em seus pés e também nas coxas
agora cobertas de varizes azuis.
A rosa se esticou tanto com seus braços impiedosos que
devorou-a em minutos apenas,
Mastigando sua pele e provando do sangue que
escorregava de seus músculos a mostra
Bebendo da enxurrada de vida que pingava em gostas
grossas daquela chuva vermelha.
Pétalas e perfumes escabrosos
devoram almas em gritos tenebrosos
Por mil anos a Rosa se personificou num espírito
turbulento em cima daquele corpo.
Correu por todo o bosque e pequenos vilarejos dilacerando
toda alma que encontrou.
Em pouco tempo roseiras se erguiam por todas as
partes, necromantes e contentes.
Abriam portas para espíritos de todas as cores e
sabores, personificações dos perfumes!
Que brincavam nas brisas de levar asfixia aos seres
que as rosas não puderam devorar.
Cada jardim esbelto e frondoso que nascia era a
destruição de uma cidade que ocorria.
Eu, que já não estava mais sozinha tentava com os
outros podar de algum jeito as rosas,
em tentativas vãs de fantasmas entristecidos que não
puderam fazer nada se não assistir.
E quando a própria morte comovida de tantas almas que
fora obrigada a buscar veio,
tentou colher uma das rosas que brotam agora da
carcaça de uma criança já putrefacta.
Cortou os dedos com os espinhos pontudos que a atacaram
com velocidade e impaciência.
Foi quando voltamos a respirar, mesmo faltando alguns
pedaços e órgãos estavam vivos!
A morte deixara de existir por tão forte ser o veneno,
e nós fomos eternizados nas dores.
Pétalas e perfumes escabrosos
devoram almas em gritos tenebrosos
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