sábado, 20 de julho de 2013

Artrópode





A beleza e a morte tem um único sabor
quando descritos nas teias da vida e da dor

Perdi meu coração há muito tempo na ponta de uma esquina fria.
Debaixo de uma lâmpada de praça envelhecida que refletia sua luz
Fraca nos olhos de uma víbora esguia que se escorregava com gentileza.
Seus cabelos da cor da nossa madrugada flutuavam tão vivos e certos
como se quisessem imitar os balanceios e sibilares da cabeça da Medusa.
Seu vestido de brisas curtas pairava calmo sobre o corpo bonito e veloz.
E como numa pequena fração de segundos mal calculados, um piscar,
Seu beijo morno enchia de paralisia e volúpias minha boca entregue à ela.

A beleza e a morte tem um único sabor
quando descritas nas teias da vida e da dor

Putrefará sem eu perceber meus lábios num vagaroso de prazer.
A dor pulsava junto de meu sangue agora, o que senti coagular logo
dentro das minhas veias tortas e estupradas azuis e esverdeadas.
Lembro, antes que as trevas ruíssem minha visão de sentir um abraço
hipnotizante e envolvente de oito braços com fome mas bem cautelosos.
E ainda posso citar que antes de perder a consciência e vir a falecer
Tive o desprazer horrendo de engasgar com minhas vísceras, tripas
e órgãos se liquefazendo lentamente até morrer com meu cérebro,
o que sufocou-me ao escorrer por meu nariz e me levando a asfixia.
Morri completamente encantado pela mulher que bebeu minha vida.

A beleza e a morte tem um único sabor
quando descritas nas teias da vida e da dor

Acordei, mas não consigo me lembrar quando isso veio a acontecer
se demorou horas, anos ou séculos, de certo que nunca vou saber.
Quando reparei a minha volta estava pisando em corpos deformados
acompanhados de espíritos chorosos esperneando e se debatendo.
A atmosfera confundia meus olhos não era nítida e sim ectoplasmática.
A espreita de uma nova vítima ou  refeição avistei minha assassina.
O jovem rapaz que ela atraíra agora nunca ouviu meus gritos ou avisos
os que para ele soaram como simples assobios indecifráveis do vento.
Então escolhi fechar meus olhos e chorar um pouco em silencio e de pé!
Sabia que logo o espírito do jovem também seria deturpado e estaria aqui
E um tanto mais tarde condenado a assistir os espetáculos da nossa viúva.
Fazendo de nós rasgos no tempo e espaço, seremos lembranças inexistentes.

A beleza e a morte tem um único sabor
quando descritas nas teias da vida e da dor



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