terça-feira, 19 de novembro de 2013

Esfera de Gelo




Aos poucos nós nos esquecemos do que é sentir calor e do que é ter um sol sobre nossas cabeças nos mantendo aquecidos. Isso faz com que sejamos jogados no tédio supremo e que andemos levados por impulsos apenas. Terminados, nós somos tragados numa poeira clarinha feita de cacos de vidro congelados. Grande parte de todos que estão existindo por aqui morreram tocados pelo próprio espírito da névoa. Uma consciência latente e disforme cujo corpo é revestido de uma luz aguda e cortante. Deste anjo sem asas e flutuante provem toda desgraça e praga, fome guerras e túmulos abertos com seus moribundos a passear vivos e entristecidos. O ceifeiro de gelo é o único que consegue atravessar os portais para fora e suportar as descargas de ectoplasma contaminado. Ele também é responsável por congelar nossos pés sobre o enorme lago que corta as montanhas brancas e nos ver afogar todas as manhas com o degelar do lago. Nossos lábios se partem no mesmo instante em que água nos beija de leve, nossos olhos são queimados no ar sem fogo algum e nossos ossos fraquejados se estilhaçam rasgando os órgãos por dentro até que todos estejam bêbados de vísceras e sangue coagulado. Aos poucos nossa consciência se esvai no vento o que por sua vez termina de cortar a carne de nossa face nos dando falsas esperanças de morrer novamente. Quando levantamos libertos da forma pesada que antes habitávamos e olhamos pela volta todo branco alvo agora é vermelho como o fogo e como tinta viva... Há braços faltando dedos por todas as partes cabeças com pés enfiados pela boca e orelhas podres dentro de estômagos pelo chão. Há vários corações pretos debulhados até onde a vista consegue imaginar, intestinos formando tapetes emaranhados como serpentes embriagadas. Pulmões enegrecidos e espatifados [...] Ambos sendo devorados por vermes brilhantes com cabeças de porco e orelhas de coelho que se estendem até a cachoeira que formam nossas lágrimas petrificadas! Pensar que tudo poderia terminar agora, depois de tanta dilaceração agonia e dor... Até esse pensamento nos é negado, uma vez que a visão vermelha que temos logo desaparece e somos tomados num sono intenso e profundo para poder acordar encarnados no mesmo lugar e da mesma forma. O ceifeiro faz questão própria de segurar nos espíritos com as garras e trancar num corpo feito de matéria, não a meteria orgânica da terra, mas tão pesada quanto a mesma... Passamos séculos até que o processo esteja completo e durante eles os vermes mutantes se acasalam sobre nós imóveis no chão, defecando, urinando e vomitando algumas partes de nossos antigos corpos que não foram digeridos como previsto. Ele parece se divertir em meio a essa podridão clara e até participa das orgias horrendas que nós tapetes agora assistimos e sentimos [...] É sempre assim que se decorre a morte desse lado, não há fogo em plasma não há lama nem lâmias nos espetando. Apenas um sádico ser iluminado de toda vontade doentia de nos reviver para sempre nessa completa agonia. Aprendi faz uns 400 anos que chorar só aumentaria as dores, é que as lágrimas percorreriam minha face como faíscas trincando a pele. Passei muito tempo com os olhos estripados por meu choro incontrolável e saudade de casa. Meu nome eu perdi aqui no vazio absoluto onde ninguém se conhece ou conversa, embora gritem a cada chicotada de vento gelado ou a medida que conseguimos arrancar o couro das costas um do outro com simples tocar. Não sei mais meu nome nem se sou homem ou mulher, essas duvidas corroeram toda minha mente assim como a de todos que enlouqueceram e tantas vezes se suicidaram até se cansarem como eu, me cansei de ser louco e voltei a ser eu mesmo... Triste e condenado a comer, respirar beber e morrer de novo e de novo gelo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário