Aos
poucos nós nos esquecemos do que é sentir calor e do que é ter um sol sobre
nossas cabeças nos mantendo aquecidos. Isso faz com que sejamos jogados no
tédio supremo e que andemos levados por impulsos apenas. Terminados, nós somos
tragados numa poeira clarinha feita de cacos de vidro congelados. Grande parte
de todos que estão existindo por aqui morreram tocados pelo próprio espírito da névoa. Uma consciência latente e disforme cujo corpo é revestido de uma luz
aguda e cortante. Deste anjo sem asas e flutuante provem toda desgraça e praga,
fome guerras e túmulos abertos com seus moribundos a passear vivos e
entristecidos. O ceifeiro de gelo é o único que consegue atravessar os portais
para fora e suportar as descargas de ectoplasma contaminado. Ele também é
responsável por congelar nossos pés sobre o enorme lago que corta as montanhas
brancas e nos ver afogar todas as manhas com o degelar do lago. Nossos lábios
se partem no mesmo instante em que água nos beija de leve, nossos olhos são
queimados no ar sem fogo algum e nossos ossos fraquejados se estilhaçam
rasgando os órgãos por dentro até que todos estejam bêbados de vísceras e
sangue coagulado. Aos poucos nossa consciência se esvai no vento o que por sua
vez termina de cortar a carne de nossa face nos dando falsas esperanças de
morrer novamente. Quando levantamos libertos da forma pesada que antes
habitávamos e olhamos pela volta todo branco alvo agora é vermelho como o fogo
e como tinta viva... Há braços faltando dedos por todas as partes cabeças com
pés enfiados pela boca e orelhas podres dentro de estômagos pelo chão. Há
vários corações pretos debulhados até onde a vista consegue imaginar,
intestinos formando tapetes emaranhados como serpentes embriagadas. Pulmões
enegrecidos e espatifados [...] Ambos sendo devorados por vermes brilhantes com
cabeças de porco e orelhas de coelho que se estendem até a cachoeira que formam
nossas lágrimas petrificadas! Pensar que tudo poderia terminar agora, depois de
tanta dilaceração agonia e dor... Até esse pensamento nos é negado, uma vez que
a visão vermelha que temos logo desaparece e somos tomados num sono intenso e
profundo para poder acordar encarnados no mesmo lugar e da mesma forma. O
ceifeiro faz questão própria de segurar nos espíritos com as garras e trancar num
corpo feito de matéria, não a meteria orgânica da terra, mas tão pesada quanto
a mesma... Passamos séculos até que o processo esteja completo e durante eles
os vermes mutantes se acasalam sobre nós imóveis no chão, defecando, urinando e
vomitando algumas partes de nossos antigos corpos que não foram digeridos como
previsto. Ele parece se divertir em meio a essa podridão clara e até participa
das orgias horrendas que nós tapetes agora assistimos e sentimos [...] É sempre
assim que se decorre a morte desse lado, não há fogo em plasma não há lama nem
lâmias nos espetando. Apenas um sádico ser iluminado de toda vontade doentia de
nos reviver para sempre nessa completa agonia. Aprendi faz uns 400 anos que
chorar só aumentaria as dores, é que as lágrimas percorreriam minha face como
faíscas trincando a pele. Passei muito tempo com os olhos estripados por meu
choro incontrolável e saudade de casa. Meu nome eu perdi aqui no vazio absoluto
onde ninguém se conhece ou conversa, embora gritem a cada chicotada de vento gelado
ou a medida que conseguimos arrancar o couro das costas um do outro com simples
tocar. Não sei mais meu nome nem se sou homem ou mulher, essas duvidas
corroeram toda minha mente assim como a de todos que enlouqueceram e tantas
vezes se suicidaram até se cansarem como eu, me cansei de ser louco e voltei a
ser eu mesmo... Triste e condenado a comer, respirar beber e morrer de novo e
de novo gelo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário